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Cuiabá, Domingo 14/06/2026

Entrevista da Semana - A | + A

MÊS DO ORGULHO LGBTQIA+ 14.06.2026 | 07h00

'Quero um MT onde ninguém precise ter medo de ser quem é', diz ativista

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Vithória Sampaio

redacao@gazetadigital.com.br

Reprodução

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O mês de junho é marcado pela luta da resistência e pelos desafios que a população LGBTQIAPN+ enfrenta para ser respeitada e viver com mais segurança em um mundo que ainda se vê muito preconceito. Mais do que as bandeiras coloridas e celebrações, o Mês do Orgulho é voltado à reflexão e à política para que o mundo se torne mais inclusivo, seguro e igualitário.

 

Em Mato Grosso, a discriminação, a violência e a dificuldade de acesso a direitos básicos continuam fazendo parte da realidade de grande parcela da comunidade, segundo a presidente da Associação do Estado. Xica da Silva, que acompanha de perto essas demandas.

 

Em entrevista ao , ela fala sobre a importância de pontuar o ‘orgulho’ como ato de resistência, visibilidade e reivindicação de direitos. Confira: 

Gazeta Digital - Em pleno 2026, por que ainda é necessário falar sobre orgulho e visibilidade LGBTQIA+? 

Xica da Silva - Muitas pessoas continuam enfrentando preconceito, violência e exclusão. A visibilidade ajuda a combater a discriminação, promover respeito e garantir que nossos direitos sejam reconhecidos. Falar sobre orgulho é afirmar que existimos, que temos voz e que merecemos viver com dignidade e igualdade.

 

Gazeta Digital - Como você avalia a realidade da população LGBTQIA+ em Mato Grosso hoje? Houve avanços significativos nos últimos anos? 

 

Xica da Silva - Houve alguns avanços nos últimos anos, principalmente na ampliação do debate público e na ocupação de espaços de participação social. Porém, avançamos em passos de tartaruga. Ainda enfrentamos grandes desafios no acesso à saúde, educação, emprego, segurança e garantia de direitos. Além disso, dentro do próprio poder público, muitas vezes encontramos resistência na criação e implementação de leis e políticas públicas voltadas para a nossa população. Frequentemente, tentam minimizar nossas demandas, retirar a importância das políticas específicas ou questionar a necessidade de ações que combatam as desigualdades que ainda vivemos diariamente. 

 

Gazeta Digital - Quais são as principais formas de preconceito e discriminação ainda enfrentadas pela comunidade no estado? 

 

Xica da Silva - As principais formas de preconceito e discriminação enfrentadas pela população LGBTQIA+ em Mato Grosso ainda estão presentes em diversos espaços. Elas aparecem na violência física e verbal, na dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, na evasão escolar causada pelo preconceito, na falta de atendimento adequado nos serviços de saúde e na exclusão social que muitas pessoas vivem diariamente. Também enfrentamos a discriminação institucional, quando nossas pautas são deslegitimadas ou quando há resistência à criação e implementação de políticas públicas que garantam direitos e proteção. Para a população trans e travesti, esses desafios são ainda mais intensos, refletindo diretamente na qualidade de vida, na empregabilidade e no acesso à cidadania.

 

Gazeta Digital -  Quais são as demandas mais urgentes que chegam até a Associação?

 

Xica da Silva - Demandas mais urgentes que chegam até a Associação estão relacionadas ao acesso à saúde, empregabilidade, assistência social e garantia de direitos. Também recebemos muitos relatos de violência, discriminação e violações de direitos humanos, especialmente contra pessoas trans e travestis. Outra demanda é a necessidade de acolhimento e orientação para pessoas que enfrentam situações de vulnerabilidade, exclusão familiar e dificuldades para acessar serviços públicos. Isso demonstra a importância de fortalecer as políticas públicas e criar uma rede de proteção mais eficiente para a população LGBTQIA+ em Mato Grosso.

 

Gazeta Digital - Você acredita que as vítimas se sentem seguras para denunciar casos de violência e discriminação? O que ainda precisa mudar? 

 

Xica da Silva - Infelizmente, muitas vítimas ainda não se sentem seguras para denunciar casos de violência e discriminação. O medo da exposição, de represálias, da revitimização e até a falta de confiança de que haverá um encaminhamento adequado fazem com que muitas situações permaneçam invisíveis. O que precisa mudar é o fortalecimento das redes de proteção, a capacitação dos órgãos públicos para um atendimento mais humanizado e o combate à LGBTfobia de forma efetiva. As pessoas precisam ter a certeza de que serão acolhidas, respeitadas e que suas denúncias serão levadas a sério. 

 

Gazeta Digital - Ainda existe quem veja a Parada apenas como uma festa. Como você responde a essa visão?

 

Xica da Silva - Sim, ainda há muitas pessoas que enxergam a Parada apenas como uma festa. Mas nós, enquanto organização, deixamos muito claro que a Parada é, antes de tudo, um ato político de resistência, visibilidade e reivindicação de direitos. A celebração faz parte da nossa cultura e da nossa forma de ocupar os espaços, mas o principal objetivo é dar voz às pessoas que historicamente foram invisibilizadas, excluídas e muitas vezes tratadas como chacota pela sociedade. A Parada é um espaço para denunciar violências, cobrar políticas públicas e afirmar que a população LGBTQIA+ tem o direito de viver com respeito, dignidade e cidadania.

 

Gazeta Digital - O que você diria para uma pessoa LGBTQIA+ que ainda vive escondendo quem é por medo da rejeição ou da violência?

 

Xica da Silva - Eu diria que eu entendo esse medo, porque ser uma pessoa LGBTQIA+, especialmente uma pessoa trans, não é fácil. Muitas vezes precisamos lidar com o preconceito, a rejeição e a violência apenas por sermos quem somos. Não vou dizer que é simples ou que o medo desaparece de uma hora para outra. Cada pessoa tem seu tempo e sua realidade. Mas quero que ela saiba que não está sozinha, que existem pessoas, movimentos e redes de apoio que lutam todos os dias para que possamos viver com mais dignidade, respeito e segurança. O mais importante é que ela nunca deixe de reconhecer seu próprio valor. Nenhuma pessoa deveria precisar esconder quem é para ser aceita ou para sobreviver.

 

Gazeta Digital - Quando você pensa no futuro, qual é o Mato Grosso que você espera? Quando você pensa no futuro, qual é o Mato Grosso que você espera deixar para as próximas gerações? 

 

Xica da Silva - Quando penso no futuro, espero deixar para as próximas gerações LGBTQIA+ um Mato Grosso em que elas não precisem enfrentar as mesmas dores e barreiras que muitas de nós enfrentamos hoje. Um estado em que possam viver sua identidade com liberdade, segurança e dignidade, sem medo da violência, da discriminação ou da exclusão. Espero que encontrem políticas públicas fortalecidas, oportunidades reais de estudo e trabalho, acesso à saúde e representação nos espaços de decisão. Meu desejo é que o orgulho deixe de ser um ato de resistência para se tornar apenas a certeza de que todas as pessoas têm seus direitos respeitados e sua humanidade reconhecida.

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