SAÚDE MENTAL 12.09.2026 | 15h00

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Montagem GD
O medo faz parte da sobrevivência, mas, quando deixa de proteger e começa a determinar escolhas, relações e caminhos, pode se transformar em uma prisão silenciosa. Da insegurança financeira ao receio da violência, passando pelo medo de fracassar, perder o emprego, se relacionar ou simplesmente sair de casa, a sensação permanente de ameaça pode atravessar a vida adulta e comprometer sono, trabalho, vínculos afetivos e autonomia.
Os números ajudam a dimensionar o problema da saúde mental no país. Dados do Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, mostram que 12,3% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal relataram diagnóstico médico de depressão. Entre as mulheres, o percentual chegou a 16,8%, mais que o dobro dos 7,1% registrados entre os homens.
Em Mato Grosso, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 apontou que 8,2% da população adulta relatava diagnóstico de depressão, percentual que representava uma parcela expressiva dos moradores do estado. No Centro-Oeste, a prevalência era de 10,4%, enquanto a média nacional alcançava 10,2%.
Na capital mato-grossense, dados mais recentes reforçam o alerta. Segundo o Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, 10,6% dos adultos de Cuiabá disseram já ter recebido diagnóstico médico de depressão. Entre as mulheres cuiabanas, a proporção foi de 12,1%, enquanto entre os homens ficou em 9,1%.
Para a psicóloga clínica Gina Coelho, 52, natural de Corumbá (MS) e residente em Cuiabá, parte do sofrimento contemporâneo está relacionada a um cenário no qual preocupações reais passam a manter o organismo em alerta por tempo prolongado.
“O Brasil vive uma realidade peculiar: não se trata apenas do medo ‘existencial’ natural do ser humano, mas de um medo ambiental crônico ligado à violência urbana, instabilidade econômica e uma sensação generalizada de impunidade”, explica.
Segundo Gina, quando esse estado se prolonga, a pessoa pode desenvolver ansiedade antecipatória, dificuldades para dormir, estresse e hipervigilância. O problema ganha outra dimensão quando começa a provocar evitação: a pessoa deixa de frequentar lugares, encontrar pessoas, viajar, assumir oportunidades profissionais ou realizar atividades necessárias por medo do que poderá acontecer.
“O marcador clínico mais forte é a evitação. Se a pessoa começa a abrir mão de direitos, prazeres ou necessidades para não sentir medo, a ajuda profissional se torna urgente”, afirma.
A psicóloga Camila Maria, 26, psicóloga clínica e educacional e mestranda em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), chama atenção para outro aspecto: nem todo medo nasce apenas de processos individuais. Ele também pode refletir as condições sociais, econômicas e relacionais em que uma pessoa está inserida.
“O medo pode promover muitas rupturas emocionais e psíquicas, e as consequências vividas pela exposição frequente e recorrente a situações de insegurança de diversas ordens, sejam elas sociais, financeiras, alimentares ou raciais, geram processos crônicos de traumatizações”, explica.
Para Camila, o sinal de alerta aparece especialmente quando o medo deixa de provocar uma reação capaz de proteger o indivíduo e passa a produzir paralisia.
“Os indícios de que o limite saudável foi rompido surgem quando o sujeito vivencia processos frequentes de paralisia e congelamento diante da vida, nos quais os recursos psíquicos de enfrentamento se esgotam e a pessoa passa a viver aprisionada pela antecipação do perigo”, pontua.
Quando a vida começa a encolher
O impacto não aparece somente nos gastos com consultas, terapia ou medicamentos. Ele pode estar nas oportunidades recusadas, nos relacionamentos interrompidos, na carreira que não avança e nas experiências que nunca chegam a acontecer.
Gina define esse processo como o “encolhimento da vida”. Segundo ela, alguém dominado pelo medo pode deixar de viajar, empreender, amar ou se arriscar criativamente. No trabalho, o receio constante de errar, falar em público ou ser demitido pode impedir mudanças e oportunidades.
“O maior preço é a ‘vida não vivida’. É a sensação de arrependimento e vazio existencial de quem passou anos se escondendo e, quando percebe, o tempo passou”, afirma. Camila acrescenta outra dimensão a essa perda: o pertencimento.
“O preço mais alto que pagamos pelo medo é o nosso pertencimento. Quando uma pessoa passa a organizar toda a sua existência em função de se proteger, ela começa a sofrer perdas profundas que vão muito além dos custos financeiros”, destaca.
Nas relações, segundo ela, o medo pode corroer a espontaneidade e a confiança, levando ao isolamento. No ambiente profissional, pode bloquear a criatividade, dificultar posicionamentos e aumentar o receio de assumir riscos.
Enfrentar não significa deixar de sentir medo
As especialistas ressaltam que superar esse processo não significa eliminar completamente o medo. Afinal, a emoção cumpre uma função essencial: reconhecer ameaças e preparar o organismo para reagir.
Gina aponta a psicoterapia, especialmente abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), além da exposição gradual e de estratégias de regulação fisiológica, como possibilidades utilizadas no tratamento, conforme cada caso.
Avaliação psiquiátrica e medicamentos também podem ser necessários em determinadas situações, sempre com acompanhamento profissional.
Ela alerta, porém, que evitar permanentemente aquilo que provoca medo pode oferecer alívio imediato e, ao mesmo tempo, fortalecer o problema.
“Evitar dá um alívio imenso na hora, mas ensina ao cérebro que ‘só sobrevivi porque evitei’. Isso reforça a fobia”, explica.
Camila defende que o enfrentamento também passa pela construção de vínculos seguros. “O processo de lidar com o medo requer, essencialmente, escuta e acolhimento”, afirma. Para ela, fortalecer redes afetivas e comunitárias ajuda a romper o isolamento e recuperar a sensação de pertencimento.
A dimensão do problema também aparece na estrutura pública necessária para atendê-lo. Em 2024, Mato Grosso contabilizava 33 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) financiados pelo Ministério da Saúde, segundo o Relatório Anual de Gestão da pasta.
No fim, o desafio da vida adulta talvez não seja construir uma existência sem riscos, mas impedir que a tentativa de evitá-los elimine justamente aquilo que se pretendia proteger: a própria vida.
Como resume Gina: “O preço do medo é a desistência da própria autonomia. A meta da psicoterapia não é eliminar o medo, ele é um sinalizador vital, mas devolver à pessoa a autoria da própria história, para que ela possa se proteger com lucidez, sem nunca deixar de viver.”
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