caso zampieri 30.09.2026 | 17h00
redacao@gazetadigital
Josi Dias/TJMT
Atualizada às 18h 23 - O coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, apontado pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) como o financiador e articulador do assassinato do advogado Roberto Zampieri, prestou depoimento no Tribunal do Júri de Cuiabá, nesta quarta-feira (30). Em um interrogatório marcado por contradições, o réu negou qualquer envolvimento no homicídio ocorrido em 5 de dezembro de 2023.
Durante a oitiva, Caçadini tentou justificar suas conexões com os outros dois réus, o atirador Antônio Gomes da Silva e o instrutor de tiro Hedilerson Fentanes. Ele afirmou que conheceu Hedilerson por meio da Frente Ampla Patriótica (FAP), movimento político criado por ele no final de 2022, no qual cuidava das redes sociais. Já sobre Antônio, que admitiu o crime, alegou que o contratou em setembro de 2023 para realizar uma reforma em seu escritório por R$ 40 mil, valor que acabou reduzido posteriormente. Além disso, não houve mais contato.
Mensagem de "missão cumprida", R$ 90 mil em espécie e "C4"
Questionado pelo promotor Vinícius Gahyva sobre mensagens com os dizeres "missão cumprida" recebidas de comparsas logo após o homicídio, o coronel argumentou tratar-se de mero "jargão militar" utilizado para confirmar qualquer ação.
A acusação também cobrou explicações sobre movimentações financeiras atípicas em espécie efetuadas pelo réu à época do crime. Caçadini afirmou que vendeu equipamentos em Uberlândia (MG) e transportou cerca de R$ 90 mil em dinheiro vivo para Mato Grosso com a intenção de comprar uma caminhonete. Chegando a Rondonópolis (212 km ao Sul), depositou R$ 60 mil e fez anotações sobre a retirada de mais valores com um parente em Várzea Grande. O réu alegou que não confia em cheques ou Pix e minimizou seus vencimentos militares: "Eu ganho mixaria do Exército, 15, 16 mil reais".
Interrogado sobre um documento encontrado em seus arquivos citando o grupo "C4" (Comando de Caça Corruptos Comunistas) e uma lista de armamentos pesados, o acusado deu respostas desconexas. Argumentou que a estrutura se referia a um projeto de treinamentos à distância (EAD) voltado a empresas e tentou discorrer sobre programas de espionagem, o que levou o magistrado a interromper a fala, afirmando que nem ele estava conseguindo compreender a explicação.
Outro ponto destacado foi a justificativa para a frase "Sou forte, inteligente e rico", anotada em sua agenda pessoal. Caçadini explicou aos jurados que se tratava de um "mantra da prosperidade" ensinado por um mentalista famoso em programas de televisão.
Imagens de Zampieri no celular e laços com Mato Grosso
O Ministério Público pressionou o acusado a explicar o motivo de manter armazenados em seu telefone celular a fotografia com os detalhes da fachada do escritório de Zampieri, a certidão de óbito do advogado e imagens do corpo da vítima ensanguentado no banco do carro.
Caçadini esquivou-se das perguntas, alegando que participava de diversos grupos de mensagem nos 27 estados e que "não sabia como o conteúdo foi parar lá". Sobre as fotos do corpo, limitou-se a dizer que as recebeu devido à repercussão do caso.
O réu também detalhou sua relação antiga com Mato Grosso, lembrando que serviu em Cuiabá em 1993, presidiu o Círculo Militar da capital e que viajou ao estado quatro vezes em 2023 para articular a FAP. Admitiu proximidade com o empresário Aníbal Laurindo, também investigado no caso, classificando-o como grande incentivador do movimento político, mas negou ter conversado com ele sobre disputas judiciais de terras travadas contra Zampieri.
Por fim, o réu relembrou seu histórico militar e admitiu ter sido punido com 30 dias de prisão e a perda de comando por desacato contra superiores ao questionar os generais e o código-fonte das urnas eletrônicas após os atos de 8 de janeiro.
18h23 - Na continuidade de seu depoimento, Etevaldo Caçadini afirmou que chegou a receber propostas para firmar um acordo de delação premiada, mas recusou a oferta. Segundo o réu, um procurador de Justiça teria garantido que, caso ele revelasse um nome envolvido no crime, seria transferido para cumprir a pena em Belo Horizonte (MG).
O coronel reformado reclamou das instalações da unidade prisional onde estava custodiado em Mato Grosso, comparando a estrutura local com estabelecimentos militares de Brasília, onde afirmou dispor de comodidades como televisão e frigobar, além de lamentar a falta de ar-condicionado na cela atual. "O problema do Brasil é que aqui todo mundo rasga a Constituição", disparou. Segundo ele, seus problemas de saúde pioraram na prisão.
Por fim, ao ser questionado por sua banca de defesa sobre eventuais desdobramentos judiciais em instâncias superiores, Caçadini declarou que não recebeu nenhuma intimação vinda do Supremo Tribunal Federal (STF).
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