DEU EM A GAZETA 16.03.2026 | 07h07

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Chico Ferreira
O descaso com o patrimônio de Cuiabá não se resume à propriedade que abrigava a antiga Gráfica Pepe e que se tornou notícia, mais uma vez, na última semana. Enquanto diversos imóveis tombados no Centro Histórico estão em situação crítica e, literalmente, se desfazem aos olhos da população cuiabana, pelo menos mais três propriedades estão escoradas por causa do risco de colapso da estrutura. Além de representar a perda do patrimônio histórico, o desabamento também pode atingir pedestres que passam pela calçada.
“As escoras são para que a sociedade não tenha nenhum tipo de risco, porque o imóvel está em colapso estrutural. É para evitar e também para salvaguardar o imóvel, porque você ainda consegue manter aquele sistema originário ainda de pé, até que se encontrem recursos. É como se fosse uma sobrevida, o imóvel está na UTI, sobre aparelhos”, explica Robinson de Carvalho Araújo, arquiteto e urbanista, superintendente de Preservação do Patrimônio Histórico e Museológico, da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel).
Na rua Campo Grande, esquina com a Pedro Celestino (antiga Rua de Cima), as escoras sustentam e impedem que um dos prédios mais relevantes para a história do município desabe. Em frente à antiga Assembleia Provincial de Mato Grosso, está um prédio colonial do século XVIII. Em 1884, o imóvel abrigou a Associação Literária Cuiabana. Em 1908, a primeira sede dos Correios e Telégrafos foi inaugurada no local, pelo General Cândido Mariano da Silva Rondon.
Em 1922, o prédio abrigou uma agência do Banco do Brasil. Em 1934, foi residência de Mário Corrêa da Costa, ex-governador de Mato Grosso. Além disso, foi Secretaria Geral do Estado, Delegacia Regional do Ministério do Trabalho e até Previdência Social. Imagens revelam que, até meados de 2015, parte do imóvel abrigava moradores e uma alfaiataria. Desde 2017, está completamente abandonado, cada vez mais degradado e tomado pelo mato. Na rua Campo Grande, as paredes estão escoradas desde 2019.
“A partir da década de 70, principalmente 80, com o declínio continuado do Centro Histórico, os usos mais qualificados no sentido comercial começaram a ficar distantes. É um imóvel que está há muito tempo sem uso”, pontua Robinson Araújo. O arquiteto explica que o prédio é uma joia guardada, que já sobrevive há centenas de anos, testemunhando a evolução da sociedade cuiabana.
“Se ele ruir, acabou, se perdeu e não há mais como reverter esse dano. Se houve em algum momento o uso do telégrafo, quer dizer que colaborou com a comunicação de Cuiabá com o resto do mundo e só por isso já bastaria a preservação do prédio, que merece uma campanha para que seja salvo”. Construído em terra, o prédio é uma mistura de épocas. Com as alterações ao longo dos anos, o imóvel possui características arquitetônicas que os bandeirantes trouxeram para a região, assim como francesas, a partir do fluxo migratório.
“Outra coisa, para construir um sobrado desse, estabilizar uma parede de terra e chegar nessa altura, era uma mão de obra muito qualificada. Era uma joia rara da época, era algo de um nível arquitetônico e construtivo muito elevado”. Para explicar o que pode ter levado a estrutura ao risco de colapso, Robinson conta que a construção do imóvel em terra crua tem dificuldade para lidar com a umidade e, quando falta cobertura, a água infiltra na estrutura, que não tem concreto e ferro, e compromete a estabilidade. “Isso, quando chega no colapso, é bastante difícil de conter”.
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