01.11.2015 | 00h00
Apenas cerca de 3% da população australiana é aborígene. Os “índios australianos” que habitaram este grande país chegaram muito antes dos britânicos. Mas, assim como no Brasil, o efeito da colonização e a mistura de culturas tornou os antigos majoritários da terra em minoria. Negros, de cabelo crespo e com feições bem particulares, os aborígenes estão hoje em condição semelhante a população indígena no nosso país.
Pesquisa realizada em 2011 a partir do DNA de atuais aborígenes indica que eles são descendentes diretos de migrantes que deixaram a África ate 75 mil anos atrás. Há ainda a conclusão de que aborígenes na Austrália são o povo que ocupou por mais tempo uma terra no mundo. Nos dias de 2015 os aborígenes australianos somam cerca de 606 mil tendo maior concentração no Estado Norte. Por lá 3 em cada 10 moradores estão longe de ter os comuns olhos azuis e pele clara, características européias.
No Oeste Australiano, onde moro, o percentual e drasticamente menor, sendo que 3,8% da população e aborígene. Apesar disso na capital deste Estado, Perth, a relação deles com descendentes de outros continentes e marcante. O governo da Austrália lança esforços para reconhecer a população aborígene, oferecendo benefícios para torná-los inclusos, oferece menções antes de cerimônias oficiais, além de outros protocolos como o reconhecimento da bandeira aborígene e a oferta de tratamento específico em certos órgãos do governo. No hospital infantil Princesa Margareth, por exemplo, existe uma recepção direcionada a eles. Mas, ainda assim, há polêmica, falta de consenso e fricção entre descendências distintas.
No centro de Perth e comum encontrá-los em situação de rua, embriagados e resistentes a seguir normas. Certa vez presenciei a abordagem policial a um grupo e entre berros e atrito físico percebi que o legado da colonização esta vivo. Este longo processo de pos-colonizacão ainda não acabou e ainda pode ser definido como um grande embate entre forcas opostas. A prova disso são as manifestações por parte das comunidades aborígenes reforçando seus direitos.
O aborígene australiano moderno faz questão de dizer quem e de onde veio. Ele procura por respeito e um olhar diferenciado. Ele fala um inglês diferente e pensa diferente.Como todo passado, não acho que certos e erros devam ser julgados, porque o presente e muito mais importante para o futuro. Quem foram os primeiros a pisar na terra e quem são as vítimas da colonização são pessoas que tem sido aos poucos reconhecidas, ainda que com certa invisibilidade e transparência. Mas, o mais importante e transformar o presente para oferecer direitos igualitários para todos os povos.
No Brasil, a população de cerca de 800 mil indígenas teve história parecida. Muitos foram dizimados durante a colonização e hoje ainda podem ser encontrados isolados, estando integrados apenas por questão oficial a população brasileira. Eles têm direitos, benefícios, mas ainda podem estar no “descompasso” cultural e temporal. Não vejo erro, somente diferenças e o grande desafio e contorná-los com o respeito a diversidade, que hoje no mundo se tornou o principal calcanhar de Aquiles. A migração de milhões do Oriente Médio em direção a Europa e só mais um capítulo da mistura de povos, ainda que as motivações e tempo sejam diferentes na linha do tempo.
Para aprofundar um pouco mais nessa palavra tendência “diversidade”, os aborígenes se diferenciam muito dentro de cada uma das centenas de populações cada um com sua língua e cultura própria. Dizer que todo aborígene e igual e o mesmo que afirmar que índios são de um único povoado. O emaranhado de detalhes exige ainda mais atenção, paciência e respeito dentro de uma sociedade já colonizada e organizada. Em Mato Grosso lembro-me das histórias de reportagem envolvendo indígenas. A população de cerca de 30 mil índios, os crimes ambientais e o avanço do agronegócio são questões atuais cada vez mais urgentes. Em algumas comunidades indígenas, ainda isoladas, o contato físico ainda nem ocorreu e o “descompasso”, a diferença, são muito grandes e devem ser levadas em consideradas. Quando menciono “descompasso” me refiro as diferentes visões de mundo e modos de vida, sem considerar teoria evolutiva.
Quando viajo de oeste a leste do mundo, passando horas dentro de avios, cruzando escalas e aeroportos eu me dou conta de que este planeta é mesmo gigante. No entanto, parece ainda ser pequeno para o punhado de desafios que a sociedade atual tem para enfrentar.
Amanda Alves é repórter e escreve da Austrália sobre a vida que pode ser experimentada. amandyta.alves@gmail.com
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.