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Entrevista da Semana - A | + A

entrevista da semana 09.02.2020 | 17h16

Psiquiatra alerta para sinais de depressão e comportamento suicida

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Nos últimos meses, o ponto turístico Portão do Inferno, em Chapada dos Guimarães, se tornou um local de atenção pública pelo índice de suicídios. No dia 19 de janeiro, um motoqueiro impediu que um homem tenta-se se jogar do precipício.
As pontes, que têm o intuito de interligar cidades, também foram palcos de tragédias. É o exemplo da Ponte Nova, entre Cuiabá e Várzea Grande, onde um homem morreu no dia 28 de janeiro após pular no rio Cuiabá.

 

Os casos chamam atenção especialmente para a saúde mental e suas consequências. A Organização Mundial da Saúde (OMS) contabiliza que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no Mundo, o que representa 4,4% da população.

Chico Ferreira

Werley silva Peres

 

 

O médico psiquiatra Werley Peres aponta o descaso, seja da sociedade como do poder público, com a saúde mental.

 

“Quando você está com problema de dor no peito, falta de ar e com coração acelerado você vai onde? No cardiologista, que é no coração. Se você tiver um problema no rim, você vai onde? No nefrologista. Se o cara tiver tomado uma pancada no joelho, vai pra onde? Ortopedista. Mas se você tiver com problema depressivo, o que você tem? Frescura. Você tem falta de serviço, falta de enxada... rótulos”, alerta.

 

Apesar do Portão do Inferno ou pontes terem chamado atenção da mídia nos últimos meses, o médico explica que apenas uma parcela diminuta de pessoas que pensam em atentar contra a própria vida procuram esses locais. O ideial, é estar atento aos sinais que as pessoas dão e direcioná-las ao tratamento.

 

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“A ignorância, da população e isso vale para a área médica também, que as pessoas têm do pescoço pra cima é impressionante. Pra elas o que vale, é só o que pode ser palpável ou visível. Aquilo que não se vê e não se palpa, já se rotula”, critica.

 

Confira a entrevista:


GD - Antes falar de depressão ou suicídio era um tabu. Acredita que o fato de se falar mais sobre e ter mais informação possa dar essa impressão de que ela cresceu no Brasil?

 

Falar é sempre bom falar, mas de uma forma mais técnica, não com a intenção de rotular ou criar algum tipo de julgamento ou pré-julgamento. Abordar esses temas na sociedade sempre ajuda pra desmitificar e principalmente vencer os preconceitos. Alguém recentemente me perguntou “doutor, mas está aumentando muito os casos?”. Não é que está aumentando, é que sempre existiram e agora está se divulgando mais. Hoje, todo mundo tem acesso a mídia social e o pior, divulgando da forma errada. Porque da forma como está sendo divulgada na mídia social, eles estão dando mais atenção ao ato em si do que exatamente no que levou ao ato. E isso acaba sendo uma situação que beira ao sadismo, parece que as pessoas gostam de ver a outra pessoa literalmente acabar com a própria vida, e não se preocupar porque tem alguém que está doente e precisa de ajuda.

 

Depois vem os julgamentos, ‘mas ah, isso é falta de Deus’, ‘isso é coisa do demônio’, ‘isso é coisa de falta de trabalho’. Então se rotula muito e isso é bem comum na sociedade e acaba que as pessoas que estão com algum transtorno mental, seja a depressão que é a principal causa de suicídio, acabam tendo vergonha pedir ajuda, por ter medo dos rótulos. Poxa, como um homem pode pedir ajuda, um homem desse tamanho, forte e grande? Como pode ter problema de cabeça? 

Os médicos, os profissionais da saúde, convivem muito pouco tempo com os pacientes. Na verdade é ínfimo perto da vida que ele tem. Quem tem que dar esse suporte é a família, que é responsável por 90% do tratamento do paciente, porque ela o acompanha. E isso na maioria das vezes é negligenciado.

 

GD - As campanhas de prevenção funcionam de fato? O que fazer para melhorar os resultados?

 

A situação do suicídio ou dos transtornos mentais são ainda subnotificados. Assim como tem muita gente que se suicida e não é colocado como suicídio. Por exemplo, alguém que tem um acidente de carro meio sem sentido. O cara estava numa reta e de repente bate num poste. Teoricamente, foi um acidente de carro, mas isso foi um acidente de carro? Então tem muitas outras formas que a pessoa acaba tentando contra a própria vida, que na verdade não foi um acidente e pode ter sido um suicídio. Assim, também com relação a outras doenças mentais, tem muita gente depressiva que se esconde atrás de uma máscara, porque ela não pode mostrar fraqueza perante o trabalho, dentro de casa, perante aos filhos. Isso faz com que as doenças psiquiátricas não são diagnosticadas, e quando são, às vezes já está muito avançada e ai demora mais para melhorar, tem que ter um maior tempo de tratamento.

 

A mídia de uma forma geral colabora muito, falar de forma perene e permanente sobre essa assunto, até que ele vire um mantra, sabe? E a gente consiga derrubar os rótulos. Eu particularmente, posso até ser um pouco exagerado, mas campanha pra mim é um sinal de fracasso. Campanha é não conseguir fazer as coisas direito, então tem que fazer uma pra ver se dá certo. Algo como suicídio, um ato que é muito pesado, a prevenção dele, o amarelo não tem que ser só um mês, tem que ser o ano inteiro, pra que ele todo o tempo as pessoas a todo tempo tenham atenção aos sinais de alguém que queira atentar contra a própria vida.

 

GD - Nos últimos meses, locais como o Portão do Inferno ou pontes, como a de Cuiabá e Várzea Grande, foram palcos de muitos suicídios e tentativas. Por que as pessoas costumam procurar esses locais?

 

Na verdade, talvez até porque terem de alguma forma feita “propaganda”. As vezes é o que falei no começo, da forma como a mensagem chega ela pode inverter a mensagem dela, porque ao invés de estimular a não cometer, ela causa um efeito cascata. Uma pessoa viu alguém fazer, que ela não estava pensando tanto e ai ela tem a ideia de fazer daquela mesma forma. Por isso as pessoas não podem compartilhar vídeo ou fotos de pessoas que estão tentando contra a própria vida, porque alguém, que pode ser da própria família, está estimulando essa pessoa a se matar.

 

 
Alguém que está tentando se matar, não quer tirar a própria vida, ela na verdade quer tirar a dor que está sentindo ou o vazio que ele tem.

 

GD - Existe alguma forma de prevenção para que as pessoas que estão pensando em suicídio evitarem esses locais? O que o poder público pode fazer? Barreiras?

 

O ideal é ter locais para acolher essas pessoas. Porque se pensar nesses locais, quantos lugares (pontes e precipícios) assim não têm em Cuiabá, quantos prédios não tem? O interessante é que, quando se promove isso, se pegar as capitais do Brasil, em determinado local ‘está acontecendo isso aqui’, as pessoas que têm a mesma intenção começam a repetir a atitude. Por isso que não é legal ficar promovendo isso. O que o poder público tem que fazer, é melhorar o suporte de acolhimento. Seja dentro dos Centro de Atenção Psicossocial (Caps), das Upas, policlínicas, nos hospitais psiquiátricos. O que temos que fazer é abraçar isso. O CVV faz um trabalho maravilhoso, que tem o número nacional que é um serviço gratuito e ajuda muita gente.

 

GD -  Mesmo com as faixas colocadas, algumas pessoas ainda tentaram o suicídio. Colocar faixas realmente ajuda?

 

Se colocar uma faixa, acho que pode ser válido, melhor do que nada. Mas assim: não acredito que isso tenha algum impacto, porque acho que a pessoa na hora não tem nem condição de lembrar-se de ler. Eu não diria que eu refutaria, mas se pensar por um lado de uma pessoa que quer ir a algum lugar, ela acaba sinalizando. Se por um lado, uma faixa pode ajudar alguém, por outro lado pode sinalizar onde ela tem que ir. Não estou falando que a pessoa que teve a ideia da facha está errada, ela teve a melhor das intenções. Se observar bem, na torre Eiffel e uma ponte do Rio Senna, que colocaram redes embaixo pra tentar evitar. Mas reforço: não é necessariamente o local, mas a forma como você fala como é o local. Você acaba promovendo, uma propaganda inversa. O que tem que ser feito é isso, conversar bastante e as pessoas estarem atentas, por exemplo, ao colega de trabalho que muda de comportamento, ao aluno que muda, ao filho, esposo dentro de casa... Porque as pessoas dão sinais, não tem como não dar sinais.

 

GD - Como a mídia pode contribuir na cobertura desses casos?

 

Perceba bem que de um tempo pra cá, a mídia mudou a forma de redigir isso. Não se descreve com requintes de crueldade como é feito o negócio. Isso é muito bom, porque de certa forma dá uma neutralidade. Você dá a informação, mas não fala como foi feito. Porque se falar como foi feito, você acaba estimulando. Se observar bem, isso vale para a maioria dos transtornos graves.

 

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Comentários

A GAZETA - 21/02/2020

Infelizmente muito triste , esse meio de comunicaçâo que publicou essa matéria matéria deveria parar para pensar .Porque fui vitimá, demitida com quadro de depressâo a mais de 5 anos que tomo médicaçaõ. Mesmo com laudo médico não teve conversar. Isso porque trabalhei a mais de 27 anos nessa empresa . Que para publicar uma matria tem que ser exemplo e cuidar mais de seus funcionarios. Não entrei na justiça, porque entreguei nas mãos de Deus ,( ELE E MEU ADVOGADO).

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