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Entrevista da Semana - A | + A

DELIVERY E FAST FOODS 01.02.2026 | 07h00

Nutricionista alerta; alimentação ruim pesa mais que sedentarismo

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Cerca de 60% da população brasileira está acima do peso. Em entrevista ao , a nutricionista Mariana Whelan afirma que o principal fator por trás desse cenário não é só a falta de exercício, mas a alimentação desbalanceada, marcada pelo crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados e pela substituição da comida feita em casa por refeições prontas, delivery e fast food.

 

Estudo realizado pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, divulgado na quarta-feira (28), mostra que o consumo de refrigerantes e sucos artificiais (5 dias por semana ou mais) teve redução de 30,9%, em 2007, para 16,2%, em 2024. Mesmo com a diminuição dos refrigerantes, a obesidade (IMC igual ou maior que 30 kg/m²) subiu.

 

GD: Como avalia o aumento expressivo dos índices de excesso de peso e obesidade no Brasil nos últimos 18 anos? Essa base de cálculo de IMC está ultrapassada?

Mariana Whelan: O aumento do excesso de peso e da obesidade no Brasil está ligado principalmente à alimentação desbalanceada. Apesar de haver mais pessoas praticando atividade física, o consumo de alimentos ultraprocessados aumentou. Esses produtos, ricos em calorias, açúcar e gordura, somados ao hábito de cozinhar menos, pedir mais delivery e fast food e a um estilo de vida com pouco sono, têm contribuído para o ganho de peso e escolhas alimentares piores.

 

Embora o IMC não diferencie massa muscular de gordura, ele continua sendo uma ferramenta útil para grandes estudos populacionais. Para refinar a avaliação, é importante associá-lo à medida da circunferência da cintura.

 

A limitação do IMC é não distinguir músculo de gordura, mas como a população geral não tem grande massa muscular, ele segue sendo confiável e de fácil aplicação em estudos populacionais.


GD: Por que mesmo com a redução no consumo de refrigerantes e o aumento da atividade física no tempo livre, os índices de obesidade e doenças crônicas continuam subindo?

Mariana Whelan: Mesmo a mudança, as pessoas continuam comendo muito fora de casa. O menor preparo da própria comida e o maior consumo de alimentos embalados e ultraprocessados, mesmo em pequenas porções, têm favorecido o excesso de peso.


GD: O que pode estar faltando na alimentação ou no estilo de vida da população para que esses indicadores melhorem?

Mariana Whelan: O desafio não está apenas em reduzir alimentos específicos, mas em mudar padrões alimentares e ambientais. É necessário aumentar o consumo de alimentos minimamente processados, reduzir de forma sustentada os ultraprocessados, criar ambientes que favoreçam a atividade física e investir em políticas públicas e educação nutricional desde a infância.

 

GD: De acordo com o estudo, o consumo de frutas e hortaliças se manteve estável, mas ainda é baixo. O que pode ser feito para incentivar esse hábito?

Mariana Whelan: Para incentivar o consumo de frutas e hortaliças, é preciso investir em educação alimentar nas escolas e na atenção primária à saúde, além de políticas que tornem esses alimentos mais acessíveis, como subsídios, redução de impostos e compras públicas. Ações como feiras livres em bairros de menor renda, cantinas escolares saudáveis e campanhas governamentais também ajudam.

 

Na era digital, o uso de influenciadores da área de culinária e saúde pode ser uma estratégia eficaz, ao divulgar receitas e formas práticas de incluir alimentos saudáveis no dia a dia.


GD: O aumento da obesidade pode estar ligado à dificuldade financeira da população em manter uma alimentação saudável, ou mesmo se consultar com um nutricionista?

As barreiras econômicas influenciam fortemente nas escolhas alimentares. A alimentação saudável tende a ser mais cara que dietas baseadas em ultraprocessados, o que leva muitas famílias a priorizarem preço em vez de qualidade nutricional. Além disso, o acesso a nutricionistas no SUS ainda é limitado.


Alimentos ultraprocessados ainda são mais baratos e acessíveis do que frutas, legumes e proteínas? Isso afeta diretamente o ganho de peso da população?

Os ultraprocessados têm preço mais baixo por caloria, grande disponibilidade e forte marketing, especialmente em áreas de menor renda. São alimentos hipercalóricos, pouco saciantes e nutricionalmente pobres, o que favorece o consumo excessivo, o ganho de peso e o surgimento de doenças.


É possível manter uma alimentação equilibrada com baixo custo? Quais seriam as alternativas viáveis para famílias de baixa renda? 

É possível comer de forma saudável gastando menos, mas isso exige informação e planejamento. Priorizar alimentos in natura, como arroz, feijão, ovos, legumes e verduras da estação, comprar em feiras e atacadistas, planejar refeições, cozinhar em casa e congelar porções são estratégias eficientes e de bom custo-benefício.

 

Mariana Whelan é nutricionista mestranda pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), pós graduanda em Nutrição Estética, Esportiva e Saúde da Mulher.  

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